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Um Mundo que Também é Nosso, livro de João Augusto Costa Vargas

Eu tive a alegria de acompanhar a trajetória acadêmica na Universidade de Brasília (como aluno destacado da graduação em Relações Internacionais e como meu orientando no Mestrado) e no Instituto Rio Branco do jovem diplomata João Augusto Costa Vargas. Eu orientei as suas duas belas dissertações de mestrado, na Unb e no IRBR, versando sobre aspectos da trajetória de João Augusto Araújo Castro. Os dois trabalhos são a base do livro Um Mundo que Também é Nosso: o pensamento e a trajetória diplomática de Araújo Castro, lançado neste mês pela Fundação Alexandre de Gusmão – FUNAG.

No livro se constrói um alentado perfil de Araújo Castro, diplomata brasileiro que inspira ainda hoje grande respeito tanto no Itamaraty quanto na academia.

João me deu a honra de prefaciar o seu trabalho. Abaixo transcrevo o pequeno prefácio, e recomendo desde logo a leitura do livro (que pode ser baixado gratuitamente aqui), que é mais do que uma inspiração para os que estudam política externa brasileira.

Prefácio do livro “Um Mundo que Também é Nosso”, de João Augusto Costa Vargas

João Augusto Araújo Castro foi um dos diplomatas que marcaram definitivamente a história institucional do Itamaraty e, por extensão, da política externa e das concepções acerca da inserção internacional do Brasil contemporâneo. É um dos casos raros de personagens seminais da diplomacia que não tinham merecido, até esse momento, um estudo mais alentado e circunstanciado do que teve a dizer, do que escreveu e de como moldou a sua visão de mundo mais às possibilidades internacionais do Brasil do que às suas condições de fato. O livro que eu tenho a satisfação de prefaciar preenche essa grave lacuna existente na historiografia brasileira das Relações Internacionais, e mais especialmente, na da Diplomacia Brasileira.

O livro de João Augusto Costa Vargas, jovem diplomata que precocemente desenvolveu grande simpatia pelo objeto do seu estudo, é extensivamente baseado nas suas duas dissertações de mestrado, defendidas no Programa de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, e no extinto Mestrado em Diplomacia do Instituto Rio Branco. Os dois trabalhos originais forneceram as balizas metodológicas e informaram o rigor científico dessa obra, aos quais se somaram muitas mais horas de pesquisa em documentação inédita e de entrevistas com contemporâneos de Araújo Castro, especialmente com os diplomatas que, quando jovens, serviram com ele.

O livro não é uma biografia. Também não é simplesmente uma análise bem comportada das categorias conceituais que decorrem de algumas das manifestações mais importantes de Araújo Castro. É, mais apropriadamente, um belo perfil perfil biográfico,empreendido com o vigor acadêmico que enquadra o pensamento do seu personagem e encadeia as suas manifestações mais marcantes como diplomata às suas inquietações intelectuais e às reviravoltas que a sua carreira conheceu. Trata-se, assim, de um trabalho que se destaca por não se furtar à intensa reflexão sobre o alcance histórico do homem e do seu modo de ver o mundo.

Escrito de forma didática e simples, para que não somente os iniciados na História da Política Exterior do Brasil possam com ela aprender, o livro de Costa Vargas descreve e interpreta as inquietações e a categorização acerca das Relações Internacionais que o seu personagem  empreendeu, agregando a elas indagações e preocupações derivadas do mundo atual e da interpretação das capacidades reais do Brasil no que diz respeito à ordem internacional, às instituições e aos seus espaços de manobra.  Portanto, para além dos acadêmicos e dos formuladores e executores da política externa, o público leigo também descobrirá  nesta obra a trajetória de formação de uma mais ricas e intensas concepções acerca do lugar do Brasil no mundo, das suas possibilidades e das transformações da política internacional de então, que apontavam para a necessidade de aberturas universalizantes e para a descobertas de novos espaços de ação – que de certo modo, foi o caminho percorrido pelo país e que se transformaram em legado fundamental da práxis diplomática brasileira.

Araújo Castro assumiu ainda jovem, com pouco mais de 44 anos, a direção da diplomacia brasileira, em um momento dificílimo da vida nacional, os momentos finais da crise quase permanente em que se desenrolou o governo de João Goulart. A atmosfera política e social de então se caracterizava por incrível tensão, que acabou levando ao fatídico golpe de Estado de abril de 1964. Naquela conjuntura, Araújo Castro, quando nomeado Chanceler, se fez o herdeiro de um esforço extraordinário de renovação das concepções acerca da prática internacional do Brasil, contextualizadas na denominada Política Externa Independente, iniciada por Jânio Quadros. Poderia se supor que, sendo diplomata de carreira, Araújo Castro poderia ter preferido suspender ou reavaliar, naquele contexto de  crise tão intensa, o ciclo de inovação aberto no comando da pasta por Afonso Arinos e confirmado por San Thiago Dantas, talvez preferindo um curso mais conservador e que não pusesse a política externa e o Itamaraty em tamanha evidência. De outro modo, o que se seguiu à sua nomeação foi a confirmação desses comandos e, na sua sequência, uma ainda maior sofistisfação conceitual.

Por que Araújo Castro, que foi antes um homem de ação e gestor diplomático do que um intelectual estritamente dedicado ao pensar do porvir do Brasil, passou a merecer a reverência de gerações de seus colegas e o respeito intenso da academia especializada? Eu acredito que justamente pelo fato de que as suas manifestações, na forma de artigos, discursos, relatórios e outros papéis, sintetizam de modo magistral o esforço mais eloquente de sincronização da ação internacional do Brasil com macro-tendências que vinham sendo percebidas por intelectuais, diplomatas e homens de Estado, e que ganhavam formas claras no pensamento político e social brasileiro desde o início da década de 1950. Nesse sentido, a insatisfação com a ordem estabelecida e com o lugar que o Brasil nela ocupava, e a crítica contundente acerca da divisão estanque e ultrapassada da política internacional entre Leste e Oeste, se fizeram comandos precisos para a ação internacional do país nas décadas que se seguiram.

Além de enriquecer o conhecimento acerca da trajetória desse incrível personagem, este livro serve à formação da opinião e colabora com a reflexão acerca das possibilidades que tem o Brasil no futuro da sua ação internacional. Nesse sentido, no momento em que se festeja o cinquentenário do celebérrimo discurso dos 3 D´s – Desarmamento, Desenvolvimento e Descolonização (pronunciado em 1963 na abertura dos debates gerais da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas), a publicação do livro de Costa Vargas é não somente oportuna, mas também uma das mais belas homenagens que a Fundação Alexandre de Gusmão do Ministério das Relações Exteriores pode prestar a Araújo Castro.

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