A nossa tragédia

Matéria do Estadão relata os efeitos perversos do “publish or perish”

Pressão para publicar pode induzir má conduta de pesquisadores

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

RIO DE JANEIRO

O número de casos de “má conduta” (termo que inclui desde plágio até trabalhos forjados ou adulterados) na ciência está aumentando, e a pressão que os pesquisadores sofrem das instituições e das agências de fomento para publicar pode ser um dos principais fatores por trás deste aumento, segundo especialistas de vários países que discutiram o assunto ontem num plenária do Fórum Mundial de Ciência, no Rio de Janeiro.

“Eu diria que o risco de má conduta é muito alto, e está aumentando. A situação poderá ficar fora de controle rapidamente”, alertou Nicholas Steneck, diretor do Programa sobre Integridade e Ética em Pesquisa da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

O número de trabalhos retratados da literatura científica hoje por conterem evidências de má conduta é muito pequeno (menos de 1% do total de trabalhos publicados), mas isso representa apenas os casos que são denunciados, investigados e comprovados. Steneck estima que o “número real” seja bem maior. “Os casos mais graves não são detectados”, afirmou. “Só vemos 1 em cada 100 casos, ou até 1 em cada 1.000.”

O debate sobre as causas desse “fenômeno” ainda é bastante especulativo. Mas muitos acreditam que a pressão competitiva para publicar e obter recursos – assim como a relação que muitas vezes existe entre essas duas coisas – é um dos principais fatores responsáveis por isso. Especialmente em países como o Brasil, onde a cultura de avaliação de mérito ainda é mais baseada na quantidade do que na qualidade de trabalhos publicados; mas também nos EUA, onde a redução dos orçamentos públicos destinados à ciência nos últimos anos tem tornado a disputa por financiamentos cada vez mais acirrada.

“Os cientistas são pressionados a publicar muitos trabalhos, de forma rápida e em revistas de grande impacto. É um ambiente indutivo ao mau comportamento”, disse ao Estado o diretor-executivo (CEO) da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), organização responsável pela publicação da revista Science, uma das mais conceituadas e de maior impacto na literatura científica mundial. “Estamos empurrando as pessoas na direção errada.”

“É muito mais fácil contar trabalhos, simplesmente; mas não é esse o caminho. Temos de avaliar as pessoas pela qualidade de seus trabalhos, não pela quantidade – especialmente os jovens pesquisadores; a pressão sobre eles para publicar é enorme”, completou Leshner. Discurso que está em sintonia com o da atual presidência do CNPq, como relatou o Estado recentemente em outras reportagens, mas que ainda enfrenta sérias dificuldades – metodológicas e culturais – para ser implementada de forma mais efetiva no Brasil.

Veja: Cientistas pedem mais qualidade e menos qualidade nas investigações

Ainda que o número de violações seja pequeno (e que qualquer atividade humana esteja sujeita a fraudes), a má conduta científica é algo que não pode ser tolerado em hipótese nenhuma, segundo Leshner, por causa do efeito cascata que isso tem sobre a percepção pública da confiabilidade da ciência como um todo. “Cada incidente que é descoberto arranha a imagem da ciência e compromete sua reputação”, afirma Leshner. “Com o tempo, as pessoas vão parar de confiar nela e de acreditar nela. Por isso, cada vez que aparece um caso desses, toda a comunidade tem de se levantar e gritar: Isso é inaceitável!”

Leshner cita o exemplo de um estudo que relacionava o uso de vacinas à ocorrência de autismo. A pesquisa foi publicada em 1998 na revista Lancet (uma das mais conceituadas na área médica) e teve grande repercussão mundial. Mais tarde, porém, descobriu-se que o estudo era uma fraude, e o trabalho foi retratado (“despublicado”, por assim dizer). “Ainda assim, por causa disso, milhares de pessoas até hoje deixam de vacinar seus filhos com medo de que eles desenvolvam autismo”, aponta Leshner. “Esse é o efeito que um único trabalho fraudado pode ter.”

A Science não está imune ao problema. Em 2004 e 2005, a revista publicou dois trabalhos do pesquisador coreano Hwang Woo-suk, que relatavam a produção dos primeiros embriões humanos clonados do mundo, com importantes implicações para o desenvolvimento de pesquisas terapêuticas com células-tronco embrionárias humanas. Pouco tempo depois, descobriu-se que os trabalhos eram completamente forjados. “Onde a Science errou nesse caso?”, pergunto a Leshner. “O Hwang fabricou tudo. Foi muito bem feito; não tinha como a gente pegar (no processo de revisão por pares)”, justifica ele.

“As revistas (scientific journals) têm um papel central na proteção da integridade científica”, ressaltou a pesquisadora Indira Nath, diretora do Blue Peter Research Center, na Índia.

As agências financiadoras também, segundo o brasileiro Paulo Beirão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que até recentemente presidia a comissão de integridade científica do CNPq. Ele disse que as agências não podem se calar nem dar as costas para o problema em suas avaliações de mérito. Caso contrário, estarão incentivando a má conduta como forma de obter recursos. “As agências têm obrigação de garantir que a ciência seja feita de forma correta e ética”, disse Beirão, enfatizando o termo “obrigação”.

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