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Peer review em publicações científicas na área de humanidades no Brasil – oportunismo, egoísmo e altruísmo

A revisão por pares (peer review) é o fundamento de qualquer empreendimento editorial científico de alto nível, como eu costumo dizer nas mensagens que envio aos colegas pesquisadores quando solicito pareceres sobre os artigos que são submetidos à RBPI. 

Trata-se de leitura detalhada, seguida de crítica e recomendações ao autor e editor, feita por pesquisadores experientes, que recomendam ou não a publicação de um trabalho. Nesse processo, em geral, o anonimato das partes é garantido – ou seja, nem o autor sabe quem fez pareceres sobre o seu artigo, e nem os pareceristas conhecem a autoria do trabalho que estão examinando. Essa é a denominada revisão em duplo cego (blind peer review ou double blind), que garante total isenção no julgamento dos trabalhos, e dá garantias ao editor e, por último, à comunidade, de que no processo de análise editorial não há lugar para favorecimentos de nenhum tipo e de que o artigo que é publicado passou por um processo rígido de validação científica.

Há, no meu entender, dois problemas fundamentais no desenvolvimento do peer review no Brasil, especialmente na área de humanidades. 

O primeiro está do lado dos autores, que muitas vezes (talvez na maior parte) não compreendem bem os objetivos do processo, e acreditam que se trata de uma implicância imerecida ou desnecessária dos editores dos periódicos. Talvez acreditem que o processo de análise editorial deveria se basear em preferências e relacionamentos pessoais, e em muitos casos apelam para o conhecimento ou intimidade que tem com os editores das publicações. São também muito refratários à incorporação das críticas, e às vezes nem se dignam a retornar as versões revisadas dos seus trabalhos. Mas é com insistência que a prática se consolidará desse lado, e a repetição do processo, com a instauração do peer review como regra de ouro, levará (e já está levando) a maior aceitação por parte dos autores.

O segundo lado é o dos pareceristas, e nesta ponta, o processo é sempre muito doloroso (para os editores, por certo). Eu creio que, como a cultura do peer review não está consolidada, muitos dos pesquisadores não tomam os convites formulados pelos editores a sério (é a outra ponta da corda fraca que liga o peer review aos autores). Há taxas surpreendentes de recusa, que chegam a 70% dos convites formulados. A maior parte dessas recusas são, na verdade, implícitas, porque alguns dos revisores convidados nem mesmo chegam a responder o convite que lhes foi formulado. O curioso disso é que esses potenciais revisores esquecem que são também autores, e que quando se apresentarem com esse chapéu, alguns revisores se dedicarão a ler, criticar, comentar, sugerir mudanças e melhoramentos no seu trabalho, indicando aos editores a viabilidade da publicação. 

Portanto, o peer review é também uma via de mão dupla, ou se se preferir, a aplicação fácil de um preceito bíblico que diz que “é dando que se recebe”… O caso da RBPI, é mais uma vez, até curioso, e o que eu mais vejo por aí é número grande de colegas que nunca se dignaram nem a responder uma mensagem de solicitação de revisão de artigos inscreverem em seus Currículos Lattes “Revisor de Periódico – Revista Brasileira de Política Internacional”… É a vida…

O segundo nó do lado dos revisores é a falta de preparo para a prática do peer review, ou a má vontade explícita em fazê-lo. Já recebi muitos pareceres de poucas palavras, do tipo – “Excelente, avante!”, ou outros nos quais se desanca com nenhuma elegância o trabalho e o autor (felizmente, sem que o reviewer saiba de quem se trata), com coisas do tipo ” há muito tempo que não leio tanta bobagem”, ou muito piores. É necessário que as equipes editoriais trabalhem com um filtro ligado na potência máxima, para evitar ruídos, contratempos e mais mágoas do que o tolerável.

É evidente que não há cursos nas universidades para se ensinar a fazer revisão científica de artigos, mas seria uma boa coisa se os orientadores de doutorado começassem a treinar os seus orientandos nessa boa prática (evidentemente, se os primeiros souberem mesmo fazer revisões, o que nem sempre acontece), justamente para que comecem a entender o que é o processo e a sua importância para o avanço da ciência. 

Uma dose de bom senso, além de conhecimento razoável sobre o tema do artigo examinado, e umas duas horas, são os ingredientes necessários para um bom parecer. O resultado é, além da nobre satisfação de apoiar as atividades de uma revista científica, a certeza de que faz um gesto de caridade para editores e equipes editoriais.


A falta de revisores qualificados e dispostos, entretanto, não é uma peculiaridade da academia brasileira. Esse é um mal que assola os meios acadêmicos de todo o mundo, em todas as áreas do conhecimento. Provavelmente aqui é ainda mais doloroso, por conta do estágio de desenvolvimento das grandes revistas científicas, que em perspectiva comparada, tem ainda muitas e muitas milhas a rodar para minimamente se equipararem aos grandes periódicos internacionais. Mas nunca é tarde para começar…
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