A nossa comédia, A nossa tragédia

A delicada gestão financeira de uma revista científica

E então, por esta época do ano o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq lança o seu tradicional edital para o financiamento de revistas científicas brasileiras. Esse edital já foi muito generoso, e a maior parte das boas revistas conseguiram fazer a transição para um modelo de acesso aberto (ou seja, no qual o conteúdo é publicado gratuitamente na internet), sem maiores tensões, justamente porque grande parte de suas despesas continuaram sendo bancadas com dinheiro do edital.
Paradoxalmente, o acesso aberto arruinou as finanças das grandes revistas tradicionais, aquelas que tiravam parte dos seus recursos da venda de assinaturas, justamente porque as suas bases de assinantes diminuíram na mesma proporção em que aumentavam a visibilidade e os acessos das suas bases de dados em repositórios institucionais e em projetos como o Scielo. Ademais, o CNPq passou recentemente a exigir que as revistas financiadas por meio do seu edital publicassem imediatamente as suas edições em acesso aberto, sem períodos de embargo. Entrementes, eu diria que de 2010 para cá, os recursos do Edital que, como eu disse, já foram generosos e suficientes, minguaram até o ponto da insignificância.
Temos portanto um problema insolúvel para as maiores revistas científicas: como financiar as suas elevadas  despesas de produção editorial (especialmente revisões e traduções), sem vender assinaturas? Há a boa prática já estabelecida em todo o mundo, entre todos os publishers de revistas em acesso aberto, que é a cobrança de taxas de submissão (que se faz quando o autor submete o artigo, sem nenhuma vinculação com eventual publicação) e de taxas de publicação dos próprios autores. Essas taxas são cobradas quando o artigo é aceito e somente será publicado mediante o pagamento soma que pode ser proporcional à extensão e número de imagens, por exemplo, que o trabalho traz, ou pode se apresentar como um valor fixo. O fato é que evidentemente, alguém tem que pagar pela produção da revista – assinantes ou os autores, porque esses recursos, no caso das grandes revistas internacionais, nunca vem do governo.
A prática da cobrança de taxas começa a se difundir no Brasil, especialmente entre as revistas das ciências duras (torna-se comum entre as melhores revistas de medicina, biologia etc). Eu não conheço uma revista importante da área de humanidades e particularmente de ciências sociais, que tenha estabelecido a cobrança de taxas de submissão ou de publicação, mas sinceramente, acho que devemos começar a pensar seriamente nisso.

De onde os autores de ciências sociais retirariam o dinheiro para pagar essas taxas? Os pesquisadores mais experientes possuem projetos financiados pelas agências de fomento, onde podem prever e executar esse tipo de despesa, e além disso, algumas universidades já tem desenvolvido programas para o pagamento de taxas de publicação. Creio também que o advento de um novo modelo de publicação, com a cobrança generalizada de taxas de publicação, acabará levando as universidades a instituírem enxovais para os professores mais produtivos, com recursos garantidos para o pagamento de despesas desse tipo.

Enfim, esse momento chegará, creio…   Mesmo que os pesquisadores mais importantes reconheçam que não existe uma alternativa fácil para as grandes revistas no cenário acadêmico brasileiro, talvez resistam também eles ao pagamento de taxas de publicação, porque se trata de uma mudança muito intensa do modelo tradicional de comunicação científica. Mas creio que entre 5 e 10 anos todas as grandes revistas se verão forçadas a instituir alguma forma de cobrança dos seus autores. Espero que a mentalidade refratária da comunidade brasileira se reverta antes que os serviços de produção editorial percam em qualidade (porque as revistas não poderão pagar os seus custos crescentes), ou mesmo antes que se atinja uma alta taxa de mortalidade no cenário das publicações científicas. 
Ainda que eu seja um defensor da cobrança de taxas de publicação, reconheço que a comunidade brasileira da área de humanidades não está pronta para essa mudança. Aliás, para tantas coisas importantes relacionadas com a publicação científica – como o peer review, por exemplo – os pesquisadores solicitados a colaborarem com as revistas ignoram solenemente os convites para revisão, enquanto esquecem que, para que os seus próprios artigos tenham sido publicados, alguns colegas da mesma área os leram e criticaram… 
Temos muito a amadurecer ainda no Brasil – publishers, editores, pesquisadores-autores…  Mas isso é assunto para outro post…
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