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O fim da greve na UnB e o retorno às atividades

Foram quase três meses de paralisação, com poucos resultados efetivos – eu diria que alguma indicação para a reestruturação da carreira, com a inclusão da classe de professor titular (antigamente provida apenas por concurso público) no fluxo de progressão funcional, a partir de critérios de produtividade. Poucos ganhos salariais, como costuma acontecer nas greves nas universidades federais.

Foi uma greve importante, entretanto, com larguíssima adesão (uma greve nacional como há muito não se via). Creio que pautou decididamente o futuro próximo, no sentido do estabelecimento de um plano de conversações acerca da reestruturação da carreira, e especialmente, a maior conscientização da categoria acerca da própria diversidade que há nas instituições federais de ensino superior.
Depois de 15 anos nessa praia, concluí que o problema principal é a falta de um projeto de todos os governos que passaram (e provavelmente dos que virão) para a universidade pública. O sistema se baseia em uma grande mentira – a de que todos os professores tem os mesmos níveis de produção e de dedicação, que fazem pesquisa e orientam estudantes na graduação e na pós-graduação. O que vemos, mesmo nas melhores universidades, é que apenas uma parcela pequena apresenta índices de produtividade realmente competitivos, fazendo pesquisa de alto nível e verdadeiramente impactante, e que se importam de verdade com os rumos dos seus programas (graduação ou pós-graduação). 
Nesse sentido, há muitos colegas que ganham muito bem mesmo, uma vez que a única coisa que fazem é ministrar as mesmas aulas, há muitos anos, para os pacientes alunos de graduação. Temos aqui uma das grandes perversidades do sistema – pagar a todos do mesmo jeito. O sistema deveria permitir que professores que não apresentem atividades de pesquisa, de extensão e de orientação, sejam encarregados de maior número de disciplinas na graduação – porque de outro modo, teremos colegas recebendo os maiores valores de hora/aula no Brasil, considerando que não farão outra coisa mesmo…
A outra perversidade é pressupor que todas as universidades estão vocacionadas a fazer pesquisa, que é um erro fundamental de entendimento das vocações regionais e uma auto-limitação que o sistema produz – a de impedir o surgimento de grandes centros de pesquisa nas mais diversas áreas.
Enfim, essas são apenas idéias rascunhadas no susto do fim súbito da greve na Universidade de Brasília, decretado por Assembléia Geral Extraordinária realizada na sexta-feira, 17 de agosto. As aulas retornam ainda nesta semana, e temos que contar com o bom senso das lideranças sindicais e também de parcelas do professorado da UnB, de não contestarem a decisão em juízo. A judicialização de uma questão como essa seria a pior coisa que nos aconteceria nesse momento…
Trabalhei insanamente ao longo dos últimos três meses… Para mim, a greve é apenas a suspensão forçada de aulas, período no qual mantive o meu compromisso de professor sindicalizado… mas nunca é a paralisação de todas as atividades que são realizadas em uma universidade – orientações, pesquisa, redação de trabalhos científicos, defesas de teses de doutorado e  de dissertações de mestrado. 
Voltaremos, na UnB, uns logo, outros em mais uns dias… Eu volto a dar aulas ainda nesta semana… pelo menos até a próxima greve…
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