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Na RBPI 1/2012 – A blindagem realista nos estudos de segurança e a ausência dos fatores econômicos


Sobre a RBPI 1/2012 – gostei muito do artigo de Fabiano Mielniczuk, professor do IRI-PUC-Rio… Abaixo, o press release…

O argumento central do artigo é que os fatores econômicos ocuparam um papel subordinado aos interesses dos Estados nas abordagens dos estudos de segurança em razão de uma “blindagem realista” que marcou o nascimento institucional da disciplina no final dos anos 1940. Obviamente, houve tentativas de enfatizar a importância desses fatores como causas determinantes para a cooperação entre os Estados. Todavia, essas contribuições ou eram associadas a outras especialidades, como a relação entre o funcionalismo e os estudos de integração europeia, ou tratadas como relativas à economia política internacional, como no caso dos estudos de interdependência.  Quando os fatores econômicos lidavam especificamente com o objeto da subárea, o objeto foi virado do avesso e passou a ser a paz, e não a guerra. Dessa forma, a disciplina de estudos de segurança permaneceu imune à ameaça.
O diálogo entre teorias de motivação e conteúdo explicitamente econômico, como a teoria de regimes, e a área de estudos de segurança teve início, efetivamente, quando aquela deixou de ser uma abordagem liberal e passou a ser um exemplo de “realismo estrutural modificado”, para usar o malabarismo verbal de Keohane, no qual os fatores econômicos se subordinavam aos interesses dos Estados. O compartilhamento de uma mesma visão sobre esses fatores foi essencial para que ocorresse a tentativa de síntese Neo-Neo. Esse debate é a prova, aliás, do vigor da blindagem realista que se estabelecera 30 anos antes. O método e a epistemologia eram econômicos, e o substrato ontológico, político.

Nesse meio tempo a realidade da política mundial tinha mudado, a economia tinha mudado, e cada vez mais a blindagem realista passou a ser pressionada. A gota d’água foi o fim da Guerra Fria, não previsto pelos realistas e explicado por muitos a partir de fatores econômicos. De todo modo, não é apenas a realidade externa à acadêmica a responsável por causar mudanças no modo como a academia enxerga essa mesma realidade. A maior profissionalização dos acadêmicos e a separação entre think-tanks e o mundo universitário, bem como mudanças na filosofia das ciências naturais que abalaram as crenças sobre a “realidade” dos empreendimentos científicos nas ciências sociais também devem ser considerados.

É nesse contexto que a blindagem realista começa a ser trincada e os fatores econômicos passam a fazer parte “insubordinadamente” da disciplina por intermédio do liberalismo e das teorias críticas, na esteira dos debates sobre a ampliação ou não do conceito de segurança. Esso processo consiste na emergência de uma “nova dimensão dos fatores econômicos”, devido ao lugar conferido ao indivíduo como sujeito de segurança, e não mais ao Estado, bem como aos fatores econômicos, associados ao bem-estar e à liberdade dos indivíduos, e não mais aos interesses estratégicos dos Estados.
Fabiano Mielniczuk é Professor Assistente I de Relações Internacionais do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – IRI-PUC-Rio (fpmiel@gmail.com)
MIELNICZUK, FabianoDo realismo à emancipação: o papel dos fatores econômicos nos estudos de segurança. Rev. bras. polít. int. [online]. 2012, vol.55, n.1, pp. 9-30. ISSN 0034-7329.
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