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Eu não sou o Carlos Lessa…

Vivo um curioso (e delicioso!) tormento desde o final de 2002. Com frequência recebo convites que deveriam ter sido dirigidos ao economista, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (e ex-reitor da mesma) e ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa. Escrevo este post, porque agora chego ao limite – somente nesta quinzena já foram quatro os convites para o Sr. Lessa (que certamente não sou eu!). Como o assunto está ficando sério, procuro esclarecer logo os desprevenidos…

É verdade que somos meio homônimos, mas uma leitura distraída do meu CV Lattes e mesmo do pouco que posto neste blog indicaria que não sou o tal professor. Não seria necessário nem se dar ao trabalho de ler um ou outro artigo da minha produção científica. São as tais delícias do Google – ponha um distraído, ou um estagiário estúpido (tanto faz), para encontrar e convidar o Carlos Lessa para qualquer coisa, e ele fatalmente chegará a mim.

Creio que devo ter recebido nesses quase oito anos de governo Lula mais de cinco dezenas de convites para participar de seminários (sobre os mais diversos temas – de desenvolvimento regional a gênero e políticas afirmativas), dar conferências, paraninfar turmas de universitários, receber homenagens diversas (ainda não chegaram convites para festas de aniversário de cachorro e batizado de bonecas, mas temos ainda alguns meses até o final do governo Lula, e eu estou aberto a recebê-los).

Isso começou ainda na fatídica tarde do final de 2002 em que o Carlos Lessa (que não sou eu) foi indicado para a Presidência do BNDES. Como que por mágica, em poucos minutos choveram e-mails dos mais diversos lugares, e mesmo de veículos sérios, me perguntando umas tantas coisas sobre a política que eu adotaria (ou melhor, o Carlos Lessa), na gestão do Banco. Não me dei ao trabalho de responder a nenhum deles, o que deve ter deixado muito jornalista com aquela impressão: “esses caras mal ficam importantes e já se transformam nuns imprestáveis – o que custava me dar o furinho para a minha cobertura desastrada dessa pauta miserável?!”.

O melhor de todos os episódios que eu coleciono veio nessa mesma tarde: alguém muito prestativo da (um dia competente) Assessoria de Comunicação da minha universidade (atenção, desatentos, a minha universidade é a de Brasília; a do Carlos Lessa, a Federal do Rio!) me telefonou e me informou, ofegante, que a ASCOM preparava rapidamente uma entrevista coletiva – nas palavras dela, “afinal, não é todo dia em que um professor da UnB vira alguma coisa importante, não é, professor?” . Lisonjeado, não tive coragem de tripudiar com a moça, que afinal, fazia com alguma competência o seu serviço – preparar uma coletiva para um professor (da universidade errada) que se via alçado à presidência do mais importante banco de fomento da América Latina.

Tenho outros: certa feita fui em Comissão do Ministério da Educação verificar as condições iniciais de oferta de um curso de bacharelado em Relações Internacionais, em cidade do Nordeste, a qual não me recordo. É de praxe nessas comissões que se promova um encontro dos avaliadores com os professores escalados para o novo curso. Pois não é que um jovem colega, muito nervoso, se adianta e na frente de todos, se diz emocionado com a oportunidade de encontrar o tal Carlos Lessa? Calma lá, rapaz! Há uma distância de um nome próprio e de pelo menos algumas décadas a separar este Antônio Carlos Lessa do Carlos Lessa que você aprecia. Afinal, seria possível que o presidente do BNDES abandonasse as suas ocupações para participar de comissões do MEC? Isso me preocupou, e temi pelo futuro das aulas de economia do curso que eu vinha de autorizar… Ai, ai, ai…

O terceiro dos contos pitorescos envolvendo o Sr. Lessa é o da moça de uma universidade também no Nordeste que me telefonava, irritada, para saber porque a desgraçada da secretária não estava transmitindo os faxes com o convite para que eu (ou o Carlos Lessa) recebesse importante homenagem na instituição, ao que se seguiria a aula magna de abertura do ano letivo. Acho que nessa altura do campeonato o Carlos Lessa não era mais presidente do BNDES, mas procurei acalmar a criatura, lembrando que nem todas as secretárias são incompetentes (somente as que dirigem convites a pessoas erradas), não sem antes perguntar qual era exatamente a homenagem (eu deveria ter perguntado se envolvia dinheiro, mas fiquei com pena da coitada) e qual era exatamente a expectativa sobre a minha (a do Carlos Lessa) conferência. Como ela não soube dizer, porque provavelmente não sabia quem era esse tal Sr. Lessa, ficou de averiguar com a sua superiora. Continuei sem responder os três ou quatro faxes que chegaram depois da intervenção da diligente funcionária. Acho que nesse último eu deveria ter embarcado… vai que o tal prêmio envolvia dinheiro, não é?

Já teve gente (umas dez pessoas, no mínimo) que me disse, sem nenhum pudor, que pensava que eu (ou o Carlos Lessa) fosse mais velho. Para isso, tenho a resposta pronta – afinal, o contato visual deveria dirimir dúvidas, não? “Obrigado pelo elogio: afinal, nadar, cuidar da alimentação, hidratar a pele e os cabelos, me transformam no que eu sou”. Para aqueles que foram mais secos, simplesmente respondi: é que eu sou acabado mesmo, todos esses anos pensando os problemas do Brasil me transformaram NISSO! Acho que esses mereceram as tais respostas…

Enfim, são tantos e tão variados os episódios envolvendo o Sr. Lessa, que não é este que aqui escreve, mas o outro, que ele deve ter estranhado o fato de ter recebido tão poucos convites nos últimos anos. A culpa, certamente, não é minha. Estive sempre aqui, tranquilo, cuidando das minhas coisas, na boa, em paz, em harmonia com a natureza e com o mundo. A culpa com certeza é da assessoria de comunicação, da secretária incompetente, ou de quem não treinou direito o estagiário – mas isso não é problema meu! Para tranquilizá-lo, eu rogaria com alguma maldade a máxima do poder em Brasília: senhor presidente, aqui na capital federal, Rei posto é Rei morto!

Viva o Lessa! (qualquer um!)

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Um comentário em “Eu não sou o Carlos Lessa…

  1. Luiz Carlos Bittencourt disse:

    Sr. Professor Lessa,

    Parabéns pela matéria, bem humorada !
    Do limão se fez limonada .
    Com sinceridade, para a pacificação dos nomes, espero que essa publicação seja suficiente! Mas….

    Cordialmente,

    Luiz C. Bittencourt

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